quinta-feira, 29 de maio de 2008

A esquerda que mexe

As contas saíram furadas a Sócrates, na sua cabeça estava uma legislatura partida em dois, uma primeira parte com aquele durão, com cara de moralizador e que achava que só sabia fazer reformas se chamasse aqueles de corporação ou aos outros de privilegiados. Para a segunda parte estava o Sócrates despido de animal feroz e que alimentaria o ano que faltaria para as eleições com os pormenores palpitantes da sua cura antitabágica. Ou seja ganhar votos à direita na primeira parte e tentar estancar a perda de votos à esquerda na segunda.
Mas o crescimento económico e o horizonte de grandes melhorias desapareceram e o petróleo passou dos 100 aos 130 dólares no espaço de um bafo de Sócrates no seu cigarro.
Mas o PS robotizado dos aplausos no parlamento reserva lá ao canto uma voz que definitivamente não se cala, e ainda bem! Alegre aparece no momento exacto, politicamente aqueles que ainda acreditavam numa réstia de esquerda do PS estão mais desiludidos que nunca, e a esperança no que está e no que virá é cada vez menor. Mas Alegre e a sua aproximação a Louçã, aos renovadores comunistas e à Esquerda Independente não é só fruto dos tempos, lendo o texto que serve de arranque para o comício de 3 de Junho está lá a referência muito daquilo que Sócrates menospreza: a corrupção, basta lembrar como os projectos de Cravinho foram para o caixote do lixo, a crise social que para o governo é uma miragem e a política externa do jogging que acha a passagem de aviões rumo a Guantanamo pelo espaço aéreo português uma coisa normal. Os princípios estão lá, e tocam no ponto principal: as desigualdades cada vez maiores. Portugal é o país dos pobres, mas é e cada vez mais o país das classes médias que não existem, e que deveriam ser a base de um país minimamente equilibrado.
Face a isto o que é que Sócrates tem para dizer? Que isso das desigualdades é mentira, e que agora os 900 mil portugueses que viviam com menos de dez euros por dia há 3 ou 4 anos atrás são agora uma irrealidade. Mais, convenceu-se que está rodeado de gente ignorante, só isso pode explicar a falta de elegância com que Sócrates veio hoje dizer que Soares foi levado ao engano pelos números da desigualdade, como se Soares fosse incapaz de entender o que se passa à sua volta. Há frases demasiadamente más para ser verdade e esta de Sócrates é uma delas.

A candidata pouco dada aos media


Ferreira Leite diz que não é a candidata do espectáculo, mas entre não ser a candidata do espectáculo e ser candidata que não consegue passar a mensagem vai uma grande diferença. Na entrevista com Judite de Sousa Ferreira Leite foi-se deixando arrastar nas respostas, ao ser confortada com um passado não muito longínquo de Ministra das Finanças. Ontem Ferreira Leite não respondeu quando Santana disse que ela não ajudou o partido e deixou-se gaguejar sem fim quando lhe pediram para explicar o que essa tal coisa da: “matriz social-democrata do partido”. No fundo era um daqueles jargões que Ferreira Leite achou que soava bem e que repetia sem fim sem saber muito bem o que queria dizer, remetendo para uma noção vaga do que é ou não deve ser o Estado.
Enquanto que o seu amigo Rui Rio diz que ainda é ele que vai “apagar os fogos do PSD”, Ferreira leite vestiu o papel da política que não gosta do marketing, mas confundi-o com o fato de uma politica que não sabe estar nos media, e não há mensagem que passe a não ser por eles, e a mensagem de Ferreira leite arrisca-se a nunca passar para ninguém.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Pessimismo em tempo de crise


Estamos em época de feira do livro e, não estando uma coisa relacionada com a outra, estamos também com umas nuvens bem negras de pessimismo em que o magro crescimento dos últimos tempos promete transformar-se em crescimento nenhum.
Por isso para avivar os espíritos mais pessimistas, ou por sua vez para a arrefecer os ânimos mais optimistas voltei a pegar num livro que já li há um ano e tal: Breve História do progresso, de Ronald Wright, apesar do título que pode soar de forma muito pesada, é um livro que se encaixa como uma luva nos tempos de hoje. Aqui encontramos a perspectiva do Homem que ao pouco vai destruído os recursos que o rodeiam, os escassos recursos sobre o qual vivemos em busca do desejo constante de crescimento desmedido. Mas não é só a teorização, que aliás é toda ela muito bem exposta, é a busca de casos concretos, em que encontramos não só o já clássico caso da ilha da Páscoa mas também povos inteiros que desapareceram com o fim da sua agricultura.
De certeza que já não somos os povos de há um bom par de milénios, mas agora vivemos tempos de mudança de paradigma de crescimento. Até hoje vivemos sobre o crescimento do petróleo, entretanto o petróleo, apesar da muita especulação há mistura, está a terminar, é preciso olhar para além, para a forma como nos sustentaremos no futuro e como nos iremos sustentar até o petróleo deixar de ser o nosso recurso maior.

Esta não é uma daquelas crises dos anos 70 em que o petróleo tens uns picos porque no Médio Oriente algo está ainda pior do que o costume. Esta é uma crise, ou pelo menos uma realidade, de longo prazo, e para não acabarmos desesperados como os exemplos que são dados na Breve História do Progresso, devemos olhar mais longe que o dia de amanhã. O problema é que o dia de amanhã traz cada vez mais consequências e problemas difíceis de ultrapassar, basta olhar para agricultura ou para as pescas com centenas de produtores que se mostram incapazes de pagar o preço de tirar o tractor da garagem, ou os armadores cansados dos baixos lucros que vão sendo cada vez menores engolidos pelo preço dos combustíveis. A escassez e a especulação começam a fazer sérios prejuízos!

Democracia à Italiana

Os Italianos nos últimos anos viveram entre uma de duas opções, ou governos com caras mais decentes que o normal Italiano, mas que não conseguem aguentar-se no cargo mais do que meia dúzia de meses, ou os Governos de Sílvio Berlusconni, que apesar de duradouros têm momentos inenarráveis como o que agora se está a viver em Nápoles. O patrão dos media tenta acabar com o problema do lixo que há meses se arrasta na cidade Napolitana, enchendo a cidade de lixo que deixou de ser recolhido pelas empresas tão bem controladas pela máfia napolitana. A solução do novo governo Italiano passa então por abrir umas licheiras nos mais pobres dos bairros de Nápoles, junto aqueles que já pouco têm, enchendo-lhes a porta de casa com o lixo que abunda pelas ruas da cidade, para além de tornar as lixeiras novas zonas militares bem guardadas. Uma solução à Berlusconni e que vai aproximando as cenas que chegam de Itália cada vez mais com a América Latibna, manifestações pouco controladas, ruas empestadas de lixo e uns carros incendiados pelo meio. É assim que Itália já foi ultrapassada pela Espanha em nível de riqueza

sábado, 24 de maio de 2008

O SNS do PSD

Ontem no debate para a liderança do PSD Ferreira Leite e Passos Coelho revelaram todo o seu grande pensamento para a saúde e que passa basicamente por fazer desaparecer com o vento a universalidade do sistema e a sua gratuitidade. Ou seja acabar com o Sistema Nacional de Saúde.
Ferreira Leite diz que não tem uma visão divisionista do partido, mas em compensação não lhe falta a visão divisionista em relação ao país, uma perspectiva em que o Estado antes de ser o Estado dos Portugueses passa a ser o Estado para os mais pobres dos Portugueses, os outros se quiserem ter cuidados de saúde pagam-nos. É a visão do Estado apenas para alguns, não o Estado que une em torno de um serviço de qualidade gratuito, mas o Estado que diferencia e que depois chuta a bola para os privados. Se é esta a visão para a saúde apetece perguntar se tal acontecer para que é que pagamos impostos? É a subversão completa da ligação ao Estado, pagamos impostos à espera de algo que esteja lá em caso de necessitarmos, não para que ainda tenhamos que pagar mais para termos direito a serviços básicos. Se alguma vez tal acontecer aí sim bem se pode decretar ainda mais o divórcio entre a classe média e os serviços públicos, para além de como é habitual ninguém se inibirá de considerar ricos e prontos a pagar muitos daqueles que estão longe da riqueza, na linha das taxas moderadoras que são pagas por quem tem um vencimento mensal que ronda essa riqueza que são 500€.
Passos Coelho vai atrás de Ferreira Leite, já que o novo apregoador do Liberalismo diz que vai inverter o Estado de alto a baixo, sem explicar muito bem como é que o faz, é um repetidor de chavões e que também criou aquela noção que tudo o que vai do Estado é mau.
Destes dois candidatos ao retrato na galeria de presidentes do PSD podíamos esperar um plano para o SNS, uma ideia sobre como garantir o sistema mantendo o seu princípio de acessibilidade, mas parece que não. O engraçado é que esta semana foram revelados os níveis de desigualdade e quem está no topo? Os países nórdicos, onde parece-me que o serviços são bem mais estimados que por cá, que por sua vez é o local mais desigual de toda a União europeia.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O país mais injusto da Europa

Somos o país mais desigual da União, segundo um relatório hoje divulgado em Bruxelas.
Há dias soubemos que os jovens empregados ganham menos em comparação com o salário médio do país do que há dez anos.
Basta pensarmos em alguém que viva com o salário mínimo e que dependa só do seu rendimento, para entendermos estes dados acerca da desigualdade. Uma família com baixos salários como poderá permitir que os filhos estudem com sucesso? Sim porque o ensino pode ser gratuito, mas para quem pouco tem não restará outra alternativa senão que os filhos tenham que trabalhar se quiserem prosseguir estudos.
Por isso o que perturba não é só que Portugal seja o país mais desigual da Europa, mas também porque olhando à volta não há nada que indique uma mudança, nó há um sinal, uma política para reverter tudo isto. O principal papel do Estado deveria ser quebrar as desigualdades, permitir que os mais pobres tenham a oportunidade de viver melhor, mas o tal papel do Estado foi metido na gaveta e a pirâmide social portuguesa é cada vez mais rígida e inexplicável.

O saudosismo dez anos depois do orgulho

Confesso que nestes dias fui picado pelo bichinho português do saudosismo ao ver as imagens das Expo de há dez anos, altura em que não passava de um puto a acabar a primária mas que se lembra, agora um década passada, muito bem do que foi ali entrar, do espectáculo no pavilhão Atlântico, do Gil que nos cumprimentava à entrada, dos espectáculos por todo recinto, do teleférico, do Aquamatrix à meia noite a encerrar o dia ou das intermináveis filas das quais me consegui escapulir, não por golpe de asa, mas devido à bendita gravidez da minha mãe que nos dava prioridade na entrada e evitava que destilasse nas filas amontoadas no Oceanário ou no Pavilhão de Portugal.
Recordamos a Expo porque todos por lá passámos, porque todos nos lembramos daquele canto lisboeta que ali se ergueu, lembramo-nos, e gostamos de nos recordar da Expo porque foi talvez o último período dos últimos largos anos que não andámos com a palavra crise em todas as conversas, porque nos convencemos que tínhamos chegado lá, à Europa. No fundo Portugal parece um país depressivo vive de picos de felicidade e de picos de tristeza, a Expo foi o nosso pico de felicidade, hoje vivemos o nosso pico de tristeza, parece que é um ciclo do qual não nos conseguimos livrar. Falta saber para quando o pico de felicidade.
Ao contrário do Euro 2004 hoje dez anos não posso olhar para a Expo e dizer que foi o mesmo que deitar dinheiro pela janela, o parque das Nações que ficou pode não ser perfeito, mas é muito melhor do que era a parte Oriental da capital há 20 anos, a Expo criou de facto um pólo novo em Lisboa. Mas a verdade também é que o modelo das construções principescas e do Betão acabou, e o que nos deu crescimento há dez anos não resulta mais, falta saber o que nos dará crescimento hoje.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Os olhos virados para os Kennedy


3 irmãos Kennedy: Bob, John e Edward


Bob e Edward Kennedy em 1967


Foi hoje divulgado que Ted Kennedy, irmão de Bob e John Kennedy tem um maligno cancro no cérebro. Até podia ser uma noticia corriqueira não fosse Edward Kennedy o líder do clã Kennedy, senador há mais de 40 anos. Se há pessoa a que se pode chamar uma autêntica instituição, Edward Kennedy é uma dessas pessoas e Obama bem lhe pode agradecer o apoio bem vincado nos últimos meses. A capacidade de influência dos Kennedy no partido democrata ainda existe e o abandono do seu apoio aos Clinton não deixou de ser um enorme balde água fria para Hillary.
Os Estados Unidos são definitivamente um país de clãs, e o líder de um dos mais influentes das últimas largas décadas passa agora por um tumor cerebral maligno que apanhou de surpresa qualquer um que via Kennedy em grande rebuliço político em campanha pela Mudança de Obama nas presidenciais de 2008

A caminho de 2009

A febre do Euro começou e daqui até Junho a selecção lá se tornará a deusa adorada do país e nada mais se passará ou interessará. Depois vamos todos a merecidos banhos de mar e de sol, portanto agenda política só em Setembro quando 2009 já estará bem matracado no horizonte, o tal ano com a agenda eleitoral bem recheada. Para Sócrates o travão bem fundo da economia não podia chegar em prior altura, o crescimento de 2008 será magro e de 2009 também, tanto neste como no próximo ano deveremos crescer abaixo da média europeia, ou seja não andámos um único passo em direcção à convergência nos últimos anos. E o BCE já afirmou que o pior da crise do imobiliário pode ainda não ter passado, e entretanto hoje veio avisar que não terá grandes complexos em subir as taxas de juro se o petróleo continuar a estes preços.
Ou seja o cenário é mau, e para tentar amenizar o panorama Sócrates veio com os números de desemprego nas mãos.
Este é o período em que cada voto começa a contar, e as Europeias já em Junho do próximo ano poderão ser o grande teste para Sócrates antes das legislativas. Talvez por isso esteja tudo a acordar para os 20% que se começam a juntar em torno do PCP do Bloco, a perda de votos à esquerda pode custar caro ao PS, sobretudo se Sócrates com a nova liderança do PSD não conseguir segurar grande parte dos votos ao centro. E Sócrates sem maioria absoluta veria o seu consolado de primeiro-ministro dar uma enorme volta, já se percebeu que negociações no parlamento não serão certamente a sua grande apetência. A preparação para 2009 está a chegar.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Aumentos e taxas a belo prazer

As Câmaras Municipais sofrem de uma dose aguda de Chico-espertismo. Ao que parece a Assembleia da República aprovou uma lei para acabar com a taxa sobre o aluguer dos contendores de água, que não passava mais que um duplo pagamento. Ora sem taxa, o que é que as câmaras fazem? Inventam uma taxa que basicamente é a mesma coisa, mas com outro nome. Para além de ser injustificada, ficamos a conhecer o belo exemplo que são as nossas câmaras, quando há uma lei de que não gostamos, ou que não nos dá jeito arranjamos esta simples solução: uma espécie de esquema meio manhoso para contornar a lei que outro órgão do Estado estabeleceu. Exemplar!
Mas falta de pruridos não é um exclusivo das câmaras, o país está aos poucos a habituar-se a que dia sim, dia não se resolva aumentar um ou dois cêntimos o preço dos combustíveis, há apenas um pequeno problema, onde está a razão para que tal aconteça? Antigamente o petróleo era mais barato e o euro muito mais fraco do que é hoje, por sua vez agora o petróleo é muito mais caro e em compensação o euro é muito mais forte, ou seja significa que nos últimos anos os preços petróleo em euros variaram muito menos que aquilo que se possa pensar. Mas esta está longe de ser uma crise igual às outras, antes as crises do petróleo eram epifenomenos, ou seja eram acontecimentos com impacto mas num breve período de tempo, agora o aumento dos combustíveis parece ter-se tornado regime, não é um acontecimento nem passageiro nem reversível, a crise do preço dos combustíveis passou de fenómeno a uma constante.

O povo que está sem país




Manifestçaões de Monges Budistas em 2007 reprimidas pela junta de Myanmar

O povo de Myanmar está sem país, habita hoje o feudo de uma junta militar que perante um ciclone devastador veda a entrada a ajuda humanitária, isola populações deixando-as literalmente a morrer à fome. Aquele povo não habita mais o seu país, a junta militar mantém presa a líder da oposição e vencedora das únicas eleições que existiram no país nos últimos anos, reprime sobre monges que vieram para a rua em Setembro e até mudou o nome do país para Myanmar como cosmética. Hoje França avançou como hipótese obrigar a junta Birmanesa a aceitar ajuda internacional, é um precedente, pode funcionar, e convém que funcione perante uma situação desesperada destas, mas em caso de represálias por esta medida quem sofrerá primeiro e ainda mais serão os Birmaneses que como já viu não são mais do que brinquedos desprezados pelos militares.

domingo, 18 de maio de 2008

A geração ensanduichada

A geração do Maio de 68 ou a geração de 70 que lhe seguiu viveram o Estado Social, dele aproveitaram em pleno, o tal Estado Social que agora se quer mudar sem apresentar nada de convincente em troca. Mas é esta geração que ficou presa entre os que estavam antes de si e os que depois de si vieram. Lutaram, tentaram e muitas vezes conseguiram viver melhor que os seus pais, formaram as suas famílias, em muitos casos licenciaram as primeiras gerações e agora que é feito desta geração? 40 anos passados esta é a geração que ficou entre aqueles que sempre pouco tiveram e os outros que tantas vezes poucas perspectivas têm. São a geração que tem que tratar dos pais, já velhos, a quem o Estado Social nunca conseguiu responder plenamente, sem reformas que os sustentem, sem local para onde possam ir; mas são também a geração que tem que sustentar os filhos até muito mais tarde do que pensariam que iria acontecer. Os filhos pouco se arriscam, ou por sua vez pouco podem arriscar sair de casa para sozinhos viverem, pois de casa dos pais provavelmente já só sairão para com outro alguém viver.
Já aqui uma vez escrevi que este país não é para a velhos, de facto não é não é nem para velhos nem para jovens solteiros, e como não é para uns nem para outros sobram os que a meio ficam e a quem cabe o papel de segurar as outras duas pontas. Não será isto sinal de retrocesso?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A Feira que não arranca em Lisboa e uma bela livraria no porto


A Feira de Lisboa teve um início torto este ano. A Miguel Pais do Amaral, ao novo magnata das editoras, não lhe agrada o ar multicolor e clássico das barraquinhas da Feira do livro e quer algo de muito diferente. Mais do que discutir as barraquinhas devia-se tentar perceber a queda da feira do livro nos últimos anos. Continua a ser um dos grandes eventos lisboetas de fim da primavera e é de loucos se a tentarem tirar do parque Eduardo VII, que sem a feira do livro arrisca-se a ficar ainda mais vazio de eventos do que já está. Mas a feira não é perfeita, longe disso e nos últimos anos algumas editoras parecem tê-la tornado o local onde escoam e põe em primeira linha aquilo que não conseguiram vender e que estava perdido em qualquer canto de armazém. Não é que os fundos de colecção não sejam importante, porque são, mas convém que o que cada editora tem para mostrar seja mais do que sobrou das vendas.
Enquanto que andávamos espantados com o facto da feira do Livro Lisboeta ter estado para não se realizar deram-me a ver estas belas fotografias desse canto de ouro do Porto que é a centenária Livraria Lello. Serviu para recordar um local e uma livraria onde já não vou há muito tempo.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Israel, 60 anos de país


Foto Robert Capa Tel-Aviv 1948, festejos da independência


Mãe

Onde vamos mãe?
Vamos para a nossa pátria,
Para o nosso país
E onde é o nosso país?
Não posso dizer-te o nome.
É proibido.
E fica muito longe esse país?
Fica do outro lado do mar, filho.
A viagem é longa?
Dois mil anos de distância
Três semanas de autocarro
Cinco horas de avião.
E como são as crianças desse país?
Todas Judias, como tu.
E eu como sou?


Moshe Benarroch, poeta judeu

O Estado tão desejado pelo povo Judeu chegou à 60 anos, a paz não. Talvez um dia o Médio Oriente seja o local da paz entre todos, mas por agora está muito longe de o ser

Uma não solução

O CDS apresentou hoje na Assembleia uma proposta que passa por dar aos pais a possibilidade de escolherem entre a escola pública e privada, sendo que em ambos os casos o Estado financiaria essa escolha. É difícil encontrar uma pior forma de contornar os problemas da Educação e não o digo por preconceito ou por especial mania, mas privatizar a Educação, que de facto é isso que se trata, está muito longe de ser a melhor forma para atingir melhores resultados.
Para sustentar o projecto o CDS abana o argumento do poder de escolha dos pais, o que não é mais do que alimentar a falácia: a que a escola privada é inatamente melhor que a escola pública, talvez baseados no facto de serem colégios privados a liderar os rankings. Redonda mentira, algumas escolas privadas têm melhores resultados porque simplesmente têm populações escolares altamente mais favoráveis e dispostas a lá estar verdadeiramente para aprender, do que populações escolares de algumas escolas públicas pouco dadas até a pôr lá os pés. Agora não vale a pena criar a ilusão que os professores num lado e de outro são diferentes, porque não são, tiraram todos os cursos nos mesmos sítios, não há técnicas pedagógicas especiais dos professores do privado e outras do público. Aliás nós falamos só das escolas privadas de topo porque também era bom olharmos para os rankings e ver que bem no fundo da tabela o que não faltam são escolas privadas de todo o género.
Outro argumento usado pelo CDS passa por afirmar que os pais devem escolher a escola que transmitirá valores aos seus filhos. Ora aqui está um segundo erro, ao contrário do que Portas pensa a escola pode e deve transmitir valores de respeito, compreensão e convivência, mas esta existe sobretudo para passar aprendizagens e conhecimentos. E isso ou uma escola faz bem ou faz mal, e não faltam escolas púbicas e escolas privadas que o façam bem e que o façam mal. De facto, o dinheiro que se iria pagar aos privados seria melhor gasto em investir verdadeiramente no Público que existe, com professores capazes, com potencial para sequer pensar em lhe fechar as portas. Dava mais trabalho, mas seria o mais justo.
Mas admitamos que a Escola Pública tem de facto problemas graves, que estas políticas são um enorme disparate, porque são, qual é a solução de Portas? Ignorar os problemas, passar ao lado, entregar a obrigação aos privados e esquecer que existe uma Escola pública a manter. Se esta medida fosse para a frente o CDS estava era a criar uma ainda maior problema ao Estado, porque simplesmente muitos privados não estariam para aturar os casos mais graves de indisciplina e fraca aprendizagem, ou seja o Estado tratava destes, ficava com a batata quente e os outros com o resto. Isto sim é desistir da escola.
Mas como foi dito no debate esta discussão sobre os cheques ensino e privatização vai começar a existir, tudo graças a uma política de tornar a Escola Pública o lugarzinho de todos os facilitismos, onde tudo vale e onde só números e percentagens estão no horizonte. Esta é a escola de Maria de Lurdes Rodrigues e se daqui a uns anos se der a privatização do ensino já sabemos a quem pedir as responsabilidades.

O arrependimento de Sócrates

Tom e Jerry também deixaram de fumar, mas por obrigação. Os espisódios em que aparecem no vício foram todos cortados

Sócrates está profundamente arrependido do que fez, o que destoa ligeiramente do que os seus assessores tinham dito de início afirmando que como o avião era fretado para o senhor primeiro-ministro a lei ficava na sala de embarque e não se aplicava. Confesso que gostei sobretudo da segunda parte das explicações de Sócrates quando nos fez saber que iniciou o seu esforço para tentar deixar de fumar. O que era dispensável, ninguém o criticou por ele fumar (o que me é absolutamente indiferente) mas por ter fumado naquele avião, o tal lugar fechado que a lei proíbe, por isso esta promessa soa a menino arrependido que aproveita o momento. Ficamos agora todos atentos, até podemos fazer disto uma espécie de reality show em que todos os dias vamos medir os níveis de monóxido de carbono nos pulmões de Sócrates quando estiver a beber os seus dois cafés matinais, uma espécie de recuperação em directo. Isso sim seria interessante! Mas eu até entendo Sócrates isto para aturar o Chavez a dizer que a sua vida é um milagre da virgem é preciso alguma coisa em que descarregar à partida, e Sócrates descarregou no tabaco.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Pravda de Angola

A União Soviética tinha o Pravda, Eduardo dos Santos tem o Jornal de Angola. Acabo de ler no arrastao a referência ao texto que foi publicado no órgão oficial ou oficioso do regime Angolano. Deixo-vos aqui o link para lerem estas pérolas que por lá são escritas

«Clara Ferreira Alves precisa de acumular uns dinheiros para fazer uma plástica. Vai daí insulta e calunia quem o capitão da sua quadrilha soarista manda. Mas parece que dali já pouco pinga dos diamantes de sangue, ela tem de arranjar outro quadrilheiro. Daniel Oliveira, um pobre diabo sem profissão, funciona com moedas na boca. É como os telefones das cabines públicas. José Júdice é um boneco que se perdeu do ventrículo salazarista e agora só grunhe disparates. Pedro Nunes, empregado de Belmiro de Azevedo, faz pela vida no “Eixo do Mal” para compor a ração de dinheiro que, pelos vistos, no “Público” já está ao nível das rapariguinhas das caixas do supermercado Continente. Aqueles quatro miseráveis mentais estão apostados em levar os abusos de liberdade de imprensa aos níveis mais aberrantes dos tempos em que a PIDE destruía a honra dos oposicionistas ao regime fascista no jornal “Diário da Manhã”, uma espécie de “Eixo do Mal” mas um pouco mais civilizado.»

Excerto do texto do Jornal de Angola, via Arrastao

A memória muito curta.

Já aqui falei do assunto, mas há de facto coisas que são difíceis de ouvir e de compreender. Cavaco encontrou-se hoje com umas juventudes partidárias, num segundo acto do discurso que já tinha feito no 25 de Abril. Não é que a preocupação com a cultura dos jovens ou falta dela não seja uma preocupação importante, mas é difícil colar esta imagem a Cavaco, que parece que agora se metamorfoseou, há um Cavaco primerio-ministro do antigamente e há um Cavaco presidente do presente . O Cavaco primeiro-ministro não gostava de ler jornais, ou pelo menos fazia gala disso, não punha os pés no parlamento e mandou o partido às urtigas porque não estava para a vida partidária, dez anos depois Cavaco descobriu que afinal a vida política tem outro encanto que o agora presidente desconhecia.
Mas se há uma tão grande preocupação com a cultura democrática dos jovens e a sua cultura política, talvez seja bom lembrar que Cavaco teve também uma política de Educação e que há frente dessa mesma política esteve, a agora salvadora do PSD Manuela Ferreira Leite, que numa recente entrevista disse que esta política de Educação de Sócrates recupera decisões suas que foram suspensas depois da sua saída do ministério. Ou seja foi de facto nos governos de Cavaco que se acentuou o sistema educativo com os resultados que temos, um sistema que se mantém com os tais resultados que agora Cavaco não gosta de olhar. A responsabilidade política e o meia-culpa não custam e seriam uma atitude mais séria e frontal de análise do problema.
Como também não sei se a realidade é tão negra, redutora e literal com Cavaco a tenta mostrar, há um problema, mas a falta de participação e de interesse político não pode ser analisado por si, como se fosse o início e o fim da realidade.

As exigências de Jardim.

Alberto João Jardim habituou-se mal nas últimas décadas na Madeira, tão mal que chegou a convencer-se que podia fazer campanha no PSD como faz na Madeira, só isso justifica a frase que hoje lhe ouvimos em que diz: “só me candidato se tiver a garantia de ganhar o partido”. Talvez alguém deva explicar a Alberto João que campanhas e candidaturas são probabilidades de ganhar ou de perder, que a democracia é isso mesmo. Mas de facto Jardim não está habituado a que tal aconteça, em 30 anos sempre foi o candidato coroado à partida, e depois na campanha no PSD não terá um partido inteiro a adorá-lo reverentemente, como na sua ilha, nem terá nada que inaugurar, e nós sabemos como é difícil para Jardim fazer uma campanha sem cortar uma fita ou outra. Talvez fosse interessante ver Jardim a fazer política a sério, com debate, com discussão, até seria interessante ver o líder do PSD Madeira em versão líder Nacional a fazer uma campanha a partir da oposição e não a partir do poder. E por isso Alberto João dificilmente se candidatará, campanhas destas não lhe assentam bem!

domingo, 11 de maio de 2008

As faces envergonhadas dos novos pobres.


Sopa dos pobres, Lisboa anos 20

Excelente o Dossier que hoje o Público nos trouxe sobre a nova pobreza em Portugal. Um bem feito, mas triste retrato de um país em retrocesso, um país que parece ter estagnado arrastando atrás de si as histórias de nova pobreza que naquela reportagem estão espelhadas. Mas é diferente a pobreza que ali encontramos, há 50 anos Portugal era o país pobre, do provincianismo de Salazar, da pobreza rural, do analfabetismo. Hoje não somos mais o país da pobreza de aldeias, esses os pobres do interior portugueses foram embora, e os que não foram para fora partiram para as cidades, e são agora os seus filhos, os filhos do que já na altura eram pobres que se vão afundando.
Os arredores das grandes cidades são o símbolo do Portugal dos últimos anos, dos que fugiram do campo para a cidade e vieram viver para os seus arredores, que aqui formaram classes médias (mesmo que frágeis), compraram carro, casa, entretanto a crise chegou, o emprego desapareceu, os juros aumentaram, os bens essenciais dispararam os preços e lá vão estas famílias empurradas de novo para a miséria, para a pobreza que os seus pais ou avós viveram e que pensaram que tinha terminado. Quanto aqueles que ficaram no interior, muitos deles continuam na mesma pobreza, as reformas que recebem são curtas, vivem longe de tudo e tal como dantes vivem do terreno mínimo que têm.
Há muita coisa que mudou, o país até pode ser diferente, mas as desigualdades sociais não diminuem, continuam e vêm há superfície, sobretudo agora quando a crise também ela demora a passar.

A esquerda de novo em discussão?


Cartoon roubado ao Ladrão de Bicicletas


A ler este post de há dias publicado no Ladrão de Bicicletas e que volta a trazer o debate de sobre de que modo os partidos de esquerda e centro esquerda na Europa irão ou terão que mudar. Gordon Brown perdeu as eleições municipais há uma semana, os conservadores encontraram o seu “Tony Blair”, o homem que provavelmente os levará de novo ao poder e que porá um ponto final nos dez anos do New Labour. Mas olhemos então para o que existe: vivemos em plena crise alimentar mundial, passamos por um crise financeira, as desigualdades pouco se reduziram, muitos interrogam-se se não será este o tempo de fazer o caminho contrário ao de há dez anos, como uma vez li fazer “a essência de um novo realismo assente na ideia que a sociedade passa à frente economia”, a economia é o meio, não o fim último.
E é no meio disto que Sócrates e a sua esquerda andam às turras, mas é nestes debates que se vê o vazio ideológico de Sócrates, chama aos outros de Esquerda conservadora, mas quando se trata de se definir a si própria apenas lhe ocorre dizer que é a “Esquerda Moderna”,a “Esquerda que não é do não”, e ficamos todos à espera de entender melhor o que isso é, que Esquerda ou peseudo-esquerda de Sócrates é esta para um dos países mais desiguais da Europa?

Os joggings de Sócrates em terras cheias de democracia



Na semana em que se falou tanto de Angola, lembrar os joggigns de Sócrates na baía de Luanda ou em Pequim, onde não faltou a corrida, mas faltaram as palavras sobre democracia.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Norte em rebuliço



“O major roubava mas roubava para ele e para nós, tudo bem… agora o filho rouba só para ele” Foi exactamente esta frase que ouvi esta tarde na SIC Notícias de uma ferrenha boavisteira que gritava a plenos pulmões toda a sua revolta à porta da liga. Gostei desta nova visão do nosso Major Valentim Loureiro, numa versão Robin dos Bosques rouba para ele e para o povo a bem da pátria boavisteira, por sua vez o filho é o mau herdeiro avarento. O futebol português tem momentos de bela comédia!

Os ilustres desconhecidos senhores deputados

As eleições do PSD deixaram a nú a forma muito democrática como se escolhem deputados. As listas do PSD para assembleia parecem ser mais regidas por ciclos de tendências do partido do que por círculos eleitorais, cada um quer garantir que terá assente nas cadeiras do parlamento um número suficiente de santanistas, menezistas ou outra coisa qualquer. Há dias numa entrevista Maria Filomena Mónica dava o exemplo do PSD para explicar como a ligação entre deputados e quem os elege é nenhuma, ninguém faz a mínima ideia de quem elegemos, a proximidade dos deputados com a realidade dos seus círculos é inexistente.
Dos deputados que iniciam uma legislatura, uma boa parte acaba por não achar fascinantes os corredores de São Bento e lá acabam por partir rumo a outros destinos.
Talvez também isto explique os baixos níveis de democraticidade que foram revelados há dias, porque também os deputados deviam prestar contas e também nós devíamos poder escolher quem nos representa, não estamos habituados a fazê-lo, a tradição democrática é pouca, mas de certeza que não é com o sistema que existe que algo vai melhorar.

Dia da Europa com muitas questões não respondidas

Cavaco chamou hoje os jornalistas a Belém para promulgar do Tratado de Lisboa em pleno dia da Europa. A maré de rectificações à velocidade da luz continua, a aprovação no parlamento português passou ao lado, uma espécie de cerimónia meia escondida para não se dar ainda mais conta da promessa de referendo quebrada. Mas é neste dia da Europa que os líderes Europeus andam a rezar aos santinhos para que o referendo Irlandês não saia com o resultado negativo depois do escândalo que obrigou à mudança de primeiro-ministro. Foi esta a Europa sonhada há 51 anos? Há meio século atrás os Europeus entendiam a Europa, compreendiam que nascia ali um projecto para reerguer o velho continente rachado a meio depois da guerra. Hoje os Europeus sabem em que é que o seu futuro mudará com o Tratado de Lisboa? Sabem como funcionarão as instituições, os órgãos que influenciarão as nossas vidas nas próximas décadas? Não sabem, o Tratado é para rectificar à presa sem referendos, mesmo que prometidos, pois não vá dar a louca aos Europeus e votar não. É esta a mentalidade paternalista, é verdade que o Referendo Francês foi dominado por outras questões que não as Europeias, mas tal não significa que o Tratado passe ao lado, pelo contrário só devia preocupar ainda mais uma Europa que prova e legitima assim o facto de não conseguir gerar discussão junto dos seus cidadãos. Qual a resposta a esta incapacidade de gerar debate? Não fazer debate nenhum! O tom do discurso de Sócrates no parlamento passa por considerar que quem é contra o Tratado de Lisboa é contra a Europa, como se o mundo fosse preto e branco, ou se está connosco ou se está contra nós ( e digo isto sem conseguir dizer se sou a favor ou contra do tratado). A Europa precisava de um desbloqueador, mas é triste quando um projecto para um tão largo futuro não possa ser discutido. É uma visão do projecto Europeu muito longe do: “Porreiro, pá!” de Sócrates.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Obama, o quase vencedor


Podia começar este texto com aquela frase: “Já está”, mas em eleições e sobretudo quando se trata de eleições entre democratas só mesmo no final para arriscar dizê-lo. Contudo podemos dizer que está quase a confirmação de Obama como candidato dos democratas às presidenciais, Hillary tinha que sonhar vencer por larga margem no Indiana e perder por pouco na Carolina do Norte, ainda pensei que tal podia acontecer com o embalo das vitórias no Ohio e Pensilvânia, mas não Barack perdeu por muito pouco no Indiana, sobretudo devido aos votos dos mais velhos que continuam a ir para Hillary, e ganhou por muitos na Carolina do Norte. Mas mais do que ganhar e olhando para os resultados Obama consolidou votos e mergulhou em novos eleitorados, para além de ter consolidado o voto negro, caso da Carolina do Norte onde Barack juntou mais de 90% dos votos dos negros. Hillary continuará na campanha, os Clintons nunca saem desfeitos, mesmo que tenha que ficar até ao fim, como li hoje Clinton inventará uma “magia política”, redefinirá o seu conceito de vitória e disputará as próximas seis primárias. Custa-me a acreditar que queira rumar como vice de Obama até à Casa branca, mas pode acontecer e só agregava votos dos mais velhos e das classes mais baixas até aos democratas.
A onda Obama renasceu, mesmo o receio que poderia haver superdelegados que acabariam por virar o voto para Clinton parece agora menos forte, e os grandes senhores do partido democrático não se sentem capaz de ir contra o voto dos delegados eleitos, pode ser que o partido compreenda os maus resultados que as divisões do passado trouxeram

terça-feira, 6 de maio de 2008

O convidado das verdades difíceis de ouvir

Bob Geldof veio a Lisboa numa conferência organizada pelo Expresso e pelo BES e o banco esperava que o senhor inglês fosse politicamente correcto, fizesse uns discursos conciliadores e não lhe desse para rebeldia, que neste caso significa para a verdade. Durante a conferência Geldof afirmou que "Angola é governada por criminosos", o que fez com que horas depois o BES emitisse um comunicado em que afirma que é "é totalmente alheio e não se identifica com as afirmações injuriosas". Parece que segundo o BES Geldof disse uma grande mentira, e na perspectiva do banco Angola é certamente um pico de democracia, Eduardo dos Santos é um Estadista ao melhor estilo das democracias ocidentais e os Angolanos vivem na mais profunda das igualdades sociais. Quem sabe sabe e o BES sabe.

Tristes números

Há números que chocam, dados e estudos que nos põem a pensar em que raio de país em que aterrámos onde parece que nada se aprende e onde tanto continua por entranhar.
O ano vai ainda no inicio e ontem descobrimos que nos três primeiros meses do ano 17 mulheres morreram em Portugal vítimas de violência doméstica, ou seja praticamente duas mulheres morreram por semana vítimas dos maridos ou dos acompanhantes que lhes ditam este triste fim. Segundo a UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), que divulgou estes dados, para além das 17 que morreram houve mais onze que foram alvos de tentativas de homicídio na sequência do mesmo tipo de episódios. Esta é daquelas realidades que se pensa que está a mudar, que mudámos para melhor, que as cenas do marido bêbado a chegar a casa e a despejar a maluqueira na mulher já desapareceram, mas não, infelizmente continuam escondidas e assustadoras.
Hoje tivemos a segunda revelação preocupante, um estudo coordenado, entre outros, por Villaverde Cabral mostra que muitos portugueses gostam do risco, tal como na estrada, no sexo os portugueses preferem a fé à razão. Só isso explica o facto de quase 60% dos portugueses inquiridos afirmarem que não usaram preservativo na 1º relação com o parceiro mais recente, sendo que entre os menos escolarizados mais de 50% afirma que nunca lhe ocorreu usar tal coisa. A isto juntemos ainda o facto de 52% dos portugueses afirmar que nunca se lembrou de fazer uma análise ao sangue para realizar o teste do HIV. Neste caso já não acredito que seja falta de informação, as televisões estão empestadas de anúncios, na escola pode não haver Educação sexual, mas o assunto é falado, é difícil passar ao lado destas recomendações. Por isso estamos a lidar mais no campo da estupidez, o Chico espertismo português a vir ao de cima.
Eu que nem gosto destes comentários a qualificar todos pela mesma bitola, neste momento só me ocorre dizer que há coisas em que continuamos, e não existe outra expressão, muito broncos.

A batalha sem fim de Obama e Hillary


O duelo Obama Hillary tem hoje novo round com as primárias no Indiana e Carolina do Norte. Hillary pode consolidar o sucesso e o reerguer de hostes das últimas semanas. Já Obama pode viver hoje as consequências dos dias difíceis dos últimos tempos, e bem pode agradecê-lo ao seu reverendo demasiadamente falador.
Qualquer que seja o resultado nada mudará, os delegados em jogo nestas eleições não irão alterar posições, e não irão alterar a indefinição.

domingo, 4 de maio de 2008

50 anos depois das presidenciais de 1958


Estamos em mês de efemérides, 40 anos depois do Maio de 68 e 50 anos depois da campanha Presidencial de Humberto Delgado.
Há frases que ficam para sempre e o “obviamente demito-o” que Delgado endereçou a Salazar ficou como marca daquela campanha presidencial de 1958, uma campanha de um Portugal que perdeu o medo e o receio por um mês. "A melhor chicotada no lombo da ditadura”, uma vez ouvi alguém dizer esta frase sobre a campanha de 58, pode não ser o mais poético dos retratos sobre aquele momento histórico, mas não deixa de ser absolutamente verdadeiro. A ditadura, ferida, mas não de morte, lá tratou da sua marosca eleitoral e enviou para Belém a avantesma do Américo Tomás.
Delgado tinha tudo para vencer, um homem que tinha rompido com o regime e que trazia para Portugal uma nova campanha próxima, a campanha dos comícios, das massas, no fundo as inspirações Americanas que Delgado foi embeber durante a estadia nos Estados Unidos, facto que até mereceu que o PCP lhe chamasse de início: “O general Coca-Cola”. Mas depois de umas eleições daquelas como não houve revolta com os resultados? Infelizmente aquele não era o momento, faltou que tudo estivesse conjugado para mudar o regime, e o momento só chegou quase 20 anos depois em 1974, mas Humberto Delgado já não foi a tempo de o viver, melhor não lhe deixaram que fosse a tempo de o viver.

Há muita gente que não sabe fazer contas

Hoje tivemos duas notícias que são a prova que a matemática dos portugueses anda de facto mal. Pelo Público descobrimos que o PSD para além de estar no estado de miséria de ideias está na penúria financeira. Consta que Ribau Esteves pediu ao Tribunal Constitucional que a multa devido ao financiamento ilegal da Somague fosse paga a prestações. Sinceramente não sei o que esta gente faz ao dinheiro, é triste quando um partido está numa situação financeira destas, digamos que dá poucas garantias elegê-los para ir gerar o dinheiro do Estado, que é como quem diz o nosso dinheiro. Os jantares fartos de carne assada estão, sem dúvida, a sair caros ao PSD.
Mas há ainda aqueles que fingem que não sabem Matemática e ficámos a saber que 6000 dos gerentes Portugueses declaram o salário mínimo, ou seja muitos ganham supostamente menos que os seus próprios funcionários. Paradigmático é o mínimo que se pode dizer.

Dia das Mães

Apesar da hora tardia e de não ser um fã deste tipo de dias aqui fica o apontamento. Primeiro com um pormenor do quadro de Klimt as Três idades da mulher, depois com o Poema à Mãe de Eugénio de Andrade. Este é daqueles poemas incontornáveis, é irremediavelmente lido num qualquer ano de liceu. Fica dedicado a todas as mães, aquelas que entranham bem que os filhos crescem, e aquelas, como esta, que nem preferem pensar nisso.




Poema à mãe

No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou o retrato adormecido no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas, talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa! Esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -, às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz: "Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura, dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe. Guardo a tua voz dentro de mim. E deixo-te as rosas...


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Isto não está fácil para Gordon Brown



Depois da indecisão sobre a saída ou não de Blair, Gordon Brown parece não aguentar o Labour que ontem teve uma enorme derrota nas eleições locais, ficando próximo do resultado dos Liberais Democratas, o terceiro partido do Reino Unido. Blair foi embora, mas o que deixou para trás pode não resistir nas próximas eleições gerais.

O comodismo absoluto

Alguns deputados da nação acham que se trabalha pouco nos supermercados, acham até que é de emergência imediata irmos todos a correr como consumidores ávidos para um supermercado, por isso toca a abri-los aos domingos e feriados. Queira-se lá saber dos trabalhadores, dá-se a desculpa que eles precisam de mais umas horinhas de trabalho e tudo se desculpa. Mais dá-se a desculpa que é impossível os portugueses não poderem ir às compras noutros dias portanto devem ir nestes. De facto como sabemos são centenas de milhares os portugueses famintos a passar dias da mais cruel das fomes por não poderem ir aos supermercados aos domingos e feriados, grandes eventos ficaram por realizar por este condicionalismo, no fundo o país precisa é disto! De facto o comodismo e o egoísmo estão em grande, não sou paternalista ao ponto de dizer que os portugueses vão passar os domingos em família no supermercado, cada um faz o que quer da sua vida, mas não deve ser muito agradável para muitos trabalhadores de supermercado passar os domingos e feriados a trabalhar, aliás é escandaloso se em feriados como do dia do trabalhador algum supermercado tiver a lata de abrir as portas. Como vemos mais uma proposta a caminhar para o progresso, ou melhor mais um passo na direcção do disparate!

1 ano de jornalismo e de muito espectáculo

Passou um ano sobre o início da novela Madeleine. Não é difícil perceber o porquê da paixão por esta história, os condimentos estão lá todos. Um casal apaixonado, uma família perfeita, as férias ideais, os dias maravilhosos interrompidos pelo desaparecimento da pequena filha. É difícil não nos sentirmos próximos de uma história destas, a imprensa inglesa não resistiu ao drama e serviu de rampa de lançamento para lançar a cara de Madeleine no mundo.
Madeleine e o seu desaparecimento tornou-se um produto de consumo para grandes massas, um produto de criação de sentimentos nos que ouviam, liam, e viam tudo o que se passava na praia da luz, durante meses tudo o que se passava no caso era devorado até à última migalha. E tantas vezes o que havia para devorar eram mesmo meia dúzia de migalhas, o caso era arrastado infinitamente sem que nada se passasse, mas mesmo assim lembro-me da Sky News ou das televisões portuguesas abrirem espaços especiais de informação, últimas horas, Breaking News cada vez que os pais se mexiam dois metros, cada vez que a porta da PJ se abria, o mais ridículo dos acontecimentos era elevado à condição de informação de primeira linha.
Mas os produtos de consumo eufórico são também aqueles que por vezes se esvaziam mais depressa e apesar de tudo Maddie foi-se evaporando como notícia, o espectador, o leitor e o ouvinte substituiu-a por uma outra qualquer outra história dramática, por uma Mariluz ou por um pai austríaco tresloucado. Maddie não foi encontrada, rios de dinheiro, tinta e horas foram gastos e o horizonte da novela acabar é nenhum, mas pelo meio todas as barbaridades foram ditas e escritas. Enquanto os pais estavam no colo da imprensa eram as vítimas britânicas, mal mudou o cenário tudo foi dito e feito, desde ir investigar o passado universitário de Kate McCann, até se invadirem as televisões de criminologistas e psicanalistas de algibeira, todos tinham a sua opinião, e todos achavam que conseguiam descortinar os sentimentos dos pais vendo-os pela televisão. Nasceram as mais diversas teorias platónicas, primeiro que a mãe vertia poucas lágrimas, choro que é essencial para qualquer tablóide mixuruco, apareceram até aqueles que afirmavam que a mãe era culpada, pelos olhos, pelas mãos ou pela curvatura das pestanas que apresentava. O ridículo no seu auge! Ajudar pais não é tornar tudo isto num circo que nós adorámos consumir, circo que os próprios pais ajudaram a montar. Fica a lição para o futuro.