domingo, 4 de maio de 2008

Dia das Mães

Apesar da hora tardia e de não ser um fã deste tipo de dias aqui fica o apontamento. Primeiro com um pormenor do quadro de Klimt as Três idades da mulher, depois com o Poema à Mãe de Eugénio de Andrade. Este é daqueles poemas incontornáveis, é irremediavelmente lido num qualquer ano de liceu. Fica dedicado a todas as mães, aquelas que entranham bem que os filhos crescem, e aquelas, como esta, que nem preferem pensar nisso.




Poema à mãe

No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou o retrato adormecido no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas, talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa! Esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -, às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz: "Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura, dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe. Guardo a tua voz dentro de mim. E deixo-te as rosas...


Eugénio de Andrade

Sem comentários: